sábado, 4 de julho de 2009

MANUEL BANDEIRA SOB A (NOVA) ÓTICA DE EDSON NERY


MANUEL BANDEIRA SOB A (NOVA) ÓTICA DE EDSON NERY

Um artista polifônico, que experimentou todos os estilos poéticos. Assim é Manuel Bandeira na visão do documentarista e pesquisador Edson Nery da Fonseca, que disseca sua vida e sua obra em Alumbramentos e perplexidades.

No ano em que a Flip homenageia o poeta pernambucano, o livro ganha uma nova reedição, com lançamento previsto para hoje, na Casa Brasil. O título remete a duas palavras significativas da cosmovisão banderiana, que traduzem sua posição diante da doença, da existência e das campanhas na vida pública do país. – Manuel Bandeira é o mais completo poeta brasileiro – afirma Fonseca. – Foi ao mesmo tempo romântico, parnasiano, simbolista, modernista e concretista. Além de tudo, foi um grande tradutor e prosador, escreveu ensaios de muita erudição. Expressou em seus poemas sentimentos diferentes e contraditórios, como alegria e tristeza, felicidade e infelicidade, euforia e melancolia, misticismo e erotismo, crença a descrença. Passeou por diversos gêneros, desde baladas, rondós e redondilhas a madrigais e sonetos, elegias, noturnos, cançõese acalantos.

Fonseca descobriu Bandeira por intermédio de Gilberto Freyre, quando este pediu ao conterrâneo para que participasse de uma coletânea de autores nordestinos (na qual entraria um dos poemas mais famosos de Bandeira, Evocação ao Recife).

Mais tarde, em 1946, quando foi estudar no Rio, visitou o poeta para que lhe explicasse o significado de alguns poemas mais herméticos. Durante muitos anos, continuaram trocando correspondência. Algumas destas cartas são reproduzidas em Alumbramentos e perplexidades.
Um CD com poemas lidos pelo autor acompanha a publicação



No livro, que vem acompanhado por um CD com poemas lidos pelo próprio Fonseca, o pesquisador analisa a familiaridade de Bandeira com o epigrama – uma composição poética curta (geralmente quadrilhas) muitas vezes usadas para a sátira.

Participativo (apoiou, por exemplo, a candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes à presidência da República) e combativo, costumava escrever epigramas para seus desafetos.

– Como poeta, foi engajado, mas também lírico – observa Fonseca. – Apesar de tuberculoso, conseguiu sobreviver mais de 80 anos, participando sempre da vida política do Brasil. A pesquisa de Fonseca resultou numa contribuição inédita. Levantando todas as músicas inspiradas em Bandeira, concluiu que se trata do poeta mais musicado no mundo.

– Seus poemas foram musicados por diversos compositores, como Radamés Gnatalli e Villa-Lobos – diz Fonseca.

– Com Villa-Lobos, tentou até criar uma canção brasileira para comemorar aniversário, para que não se cantasse aquela horrorosa versão de Parabéns para você. Era uma canção muito bonita, mas lembro de ver pilhas e pilhas da gravação apodrecendo.

Foi muito mal divulgado. Em relação às parcerias com Villa-Lobos, Bandeira costumava dizer que não sabia exatamente qual era a contribuição de cada artista nas obras. Ambos realizaram ainda uma canção de Natal, que também teve consequências negativas.

– O Partido Comunista acusou Bandeira de ter feito a música para receber uma comitiva americana, o que é um absurdo. Ele ficou muito chateado e nunca mais falou com nenhum artista do partido.


EDSON NERY DA FONSECA NA ABERTURA DA FLIP


"E "alumbramento" é também um termo apropriado pela fluidez emocionada – daquele tipo que carrega todo um universo consigo – com a qual Arrigucci discorreu sobre "o poeta da passagem para a poesia moderna no Brasil", nas suas próprias palavras. Muito à vontade no palco (ele já viera à Flip há cinco anos, para falar de Guimarães Rosa), o crítico ainda protagonizou o primeiro momento de comoção da plateia: quando o pesquisador Edson Nery da Fonseca, amigo e correspondente de Bandeira, chegou à Tenda dos Autores, instalando-se de cadeira de rodas na arquibancada. Arrigucci já havia começado a sua apresentação, mas fez uma pausa e pediu uma salva de palmas ao recém-chegado."

© Juliana Krapp no Jornal do Brasil, 2 de julho de 2009.

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