quarta-feira, 20 de abril de 2011

CARTA DE MARIO QUINTANA A UM POETA

Meu caro poeta,


Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito.


Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio.


Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano.


Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos.


Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano.


O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano.


Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!



Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escreve os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz, mas não diz.



A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel.


Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema.


Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.




Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos.


Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega.


Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.




Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas.


Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico.


Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos.


E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.




Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que, no entanto, me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.




Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

Mario Quintana

 fonte: http://clubecaiubi.ning.com http://clubecaiubi.ning.com/forum/topics/carta-de-mario-quintana-a-um#ixzz1K5m77PrQ

quinta-feira, 14 de abril de 2011

AÇÃO NO DIA INTERNACIONAL DO LIVRO - 23 DE ABRIL


DIA 23 DE ABRIL É O DIA INTERNACIONAL DO LIVRO, DATA INSTITUIDA PELA UNESCO. E, COMO O LIVRO É O NOSSO PRINCIPAL MOTIVO DE UNIÃO, VENHO AQUI PROPOR UMA AÇÃO INTERESSANTE. UMA INTENSA FORMA DE COMEMORAR O NOSSO ESTANDARTE.


MUITO MAIS DO QUE UM OBJETO, O LIVRO É UMA PORTA QUE NOS ABRE UM MUNDO INFINITO E QUE NOS COLOCA COMO SERES PRIVILEGIADOS JÁ QUE SOMOS SUJEITO E PREDICADO DESSA FANTASIA. SOMOS ESCRITORAS E LEITORAS. CRIADORAS E CRIATURA.

 NESSE DIA, VAMOS ABANDONAR LIVROS PELAS NOSSAS RESPECTIVAS CIDADES. SEJA DO OIAPOQUE AO CHUÍ, SEJA EM STUTTGART OU ONDE A GENTE MORAR. VAMOS FAZER ACONTECER. ASSIM SEJA.

PRIMEIRO PASSO: ESCOLHER OS LIVROS QUE NÃO MAIS IREMOS LER, MAS QUE ALEGRARÃO OUTRAS PESSOAS.

SEGUNDO PASSO: DEIXAR UM BILHETE DENTRO DELE . EXEMPLO: ESSE LIVRO É SEU. ESPERO QUE GOSTE DO PRESENTE E FAÇA DELE UM BOM USO.
(DÊ A SUA PRÓPRIA REDAÇÃO. ASSINAR O BILHETE OU DEIXAR A SUA HOME PAGE É OPCIONAL. EU SEMPRE DEIXO. EM NOME DA PRUDÊNCIA, NÃO ACONSELHO INFORMAR SEU E-MAIL OU TELEFONE MUITO MENOS ENDEREÇO. ISSO PODE TRANSFORMAR A SUA VIDA NUM INFERNO).

TERCEIRO PASSO: COLOCÁ-LO DENTRO DE UM SAQUINHO PLÁSTICO, NO CASO DE ABANDONÁ-LO NA RUA OU ONDE POSSA CORRER RISCO DE SE ESTRAGAR. CUIDADO É CARINHO.
 
QUARTO PASSO: NO PRÓXIMO DIA 23 DE ABRIL CARREGÁ-LOS NA SACOLA E DEIXÁ-LOS DISTRAIDAMENTE EM PRAÇAS, RESTAURANTES, TOALETES. METRÔ, TAXI, ELEVADOR, PORTARIA, PRATELEIRAS DE SUPERMERCADOS, BANCOS DE IGREJA, AVIÃO, E MIL OUTROS LUGARES QUE VOCÊS INVENTAREM.

EU FAÇO ISSO SEMPRE. JÁ TENHO ATÉ UM CARIMBO PARA MARCAR A DOAÇÃO. COLOCO A MINHA HOME PAGE, NADA MAIS. ME DIVIRTO BASTANTE. MEU CORAÇÃO BATE COMO SE ESTIVESSE FAZENDO UMA COISA ERRADA. É UM BARATO.
INVENTEI ISSO EM 2002 NO PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DO FATÍDICO 11 DE SETEMBRO QUE DERRUBOU AS TORRES GÊMEAS. CHAMEI A INICIATIVA DE "ATENTADO LITERÁRIO". DEU CERTO. MUITA GENTE REPETIU A CAMPANHA O QUE CONSIDERO UMA ATITUDE VITORIOSA.

Joyce Cavalcante

Fonte: REBRA - Rede de Escritoras Brasileiras